AS MULHERES QUE SEGUIAM E SERVIAM A JESUS

 

Na caminhada de Jesus por este mundo testemunhos evangelistas apontam homens e mulheres que o seguiam e serviam. Contudo, em se tratando exclusivamente das mulheres, enumerá-las torna-se difícil, pelo fato de que nem sempre são citadas pelos nomes e, quando isso acontece geralmente está em relação a um homem, principalmente no Antigo Testamento. Por exemplo: São Mateus nos diz que Jesus cura uma mulher. Quem é ela? Jesus vai jantar na casa de Simão e “uma mulher” lhe derrama perfume sobre os pés. Quem é ela?

Se pensarmos nos significados das palavras seguir e servir, fica mais fácil apontar uma mulher entre tantas outras, muito especial que viveu toda a sua vida para amar a Jesus, segui-lo e servi-lo. Falo de Maria, sua mãe.

No grego a palavra seguir está direcionada a “seguir como discípulo”, principalmente quando vem pela boca de Jesus. O verbo aparece sempre no imperativo, indicando o início do discipulado, um relacionamento íntimo de quem chama com autoridade divina.

O vocábulo “seguir” usado na língua grega serve indistintamente quando se refere a ser discípulo ou discípula. A mesma palavra que Jesus usa com Mateus para que seja seu discípulo “segue-me” (Mt 9, 9) é usada para as mulheres que seguiam a Jesus desde a Galiléia (Mt 27,55). Portanto também  suas discípulas.

Ser discípula ou seguir a Jesus era uma vocação escatológica para ajudar na construção do Reino. Assim Nossa Senhora foi chamada ao discipulado por Ele e, dessa forma participou da autoridade de Jesus, sendo enviada com sua mensagem para realizar as mesmas obras que ele, como qualquer outro discípulo, conforme ele mesmo diz: “Quem crê em mim, também fará as obras que eu faço. E fará maiores ainda”. (Jo 14, 12).

Em geral as mulheres que aceitaram a nova vocação de discípulas, abandonaram suas antigas. Maria deixa de ser apenas mãe para ser sua seguidora, disposta a todo e qualquer sofrimento, pois ele é parte de todo discipulado “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mc 8, 34).

Quanto à palavra “servir”, pode ser “servir a mesa” (Mt 8, 15) ou “cuidar de ...”(Mt 27, 55), mas também pode ser empregado além do apenas servir, estendendo-se aos limites de seu significado, tornando-se norma de vida dos discípulos e discípulas de Jesus “Quem será o maior, quem está sentado à mesa ou quem serve?” (Lc 22, 27). Vimos, portanto que o “seguir” e o “servir” em relação também às mulheres, estão inseridos no chamado a ser discípulo ou apóstolo de Jesus.

É importante perceber que uma nova sensibilidade religiosa se configura na presença de Maria além da mãe de Jesus. Ela de mãe passa a ser sua “seguidora e servidora” e, portanto sua discípula.

Em consonância com o Vaticano II, tal imagem de Maria como discípula é considerada, no campo ecumênico, como emblema e prefiguração de um novo modo de olhar para ela, como uma ponte lançada entre católicos e evangélicos.

Dentro desta ótica de progressivo ajustamento e compreensão, é que devemos ver a exortação apostólica “Marialis Cultis”, do Papa Paulo VI de 1974, no seu décimo primeiro ano de pontificado, quando diz que a Virgem Maria foi, antes de mais nada, imitada pelos fiéis “...não exatamente pelo tipo de vida que ela levou, ou menos ainda, por causa do ambiente sócio-cultural em que se desenrolou a sua existência. Nas condições concretas de sua vida, ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (Lc 1, 38); porque soube acolher a sua palavra e pô-la em prática; porque em suma  a Virgem Maria foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo, o que naturalmente tem um valor universal e permanente”.

No III século, época Patrística, para Orígenes (pai da Igreja) a Virgem Maria é um modelo da perfeita discípula“É preciso imitar Maria a fim de que nasça em nós o seguimento ao Cristo”.

O título “Maria discípula do Senhor” antes de qualquer questionamento por parte de todos nós cristãos católicos, repercute na visão ecumênica, por seu fundamento bíblico. Em Mateus 1, 46 – 50 é apresentado Jesus que, enquanto está ensinando, é visitado por sua mãe e por seus parentes, e pergunta: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãs?”. Depois estendendo a mão para os seus discípulos diz: “Eis minha mãe e eis meus irmãos, porque quem faz a vontade do meu Pai, é para mim irmã, irmão e mãe”. (Mat 12, 48-50).

Entendemos que para Jesus a relação de discipulado, naquele momento, está mais próxima do seu coração do que os próprios laços familiares humanos. Essa relação vem da importância maior de fazer a vontade do Pai.

S. Lucas (o evangelho dos pobres, das crianças e das mulheres), é quem coloca com mais ênfase o papel de Maria como discípula. Com efeito, ele enumera Nossa Senhora como membro da primeira comunidade dos cristãos depois da ressurreição de Jesus. Também isso fica bem claro no relato do seu sim “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Aqui Maria comprova na primeira pessoa a definição de seguidora, servidora e discípula do Senhor. Lucas continua: “Maria por sua vez conservava todas essa coisas meditando-as e guardando em seu coração” (2, 51). O fator “ouvir a Jesus” era considerado seguimento e serviço.

Assim concluímos que a Virgem Maria desde o chamado do Pai (este por meio dela pôs nas mãos da humanidade a redenção de todos), cooperou na História da Salvação a partir do seu “sim” a esse chamado. Maria, “serva do Senhor” tornou-se a mãe do salvador e em seguida uma verdadeira discípula, por seus dons e em saber ouvir, aceitar e praticar a mensagem celeste. Dessa forma transcende a sua função de mãe; por sua simplicidade e fé transforma-se em intérprete dos sentimentos e aspirações de todos que no sofrimento e na injustiça buscam soluções.

Concluímos, desta forma que somos a imagem visível do Pai em Jesus Cristo e em Maria, sua mãe e discípula.