Por que Jesus chamou sua mãe de Mulher?

 

        Existem termos na língua e cultura de um povo que parecem para eles comuns, até um elogio, mas para outros uma falta de respeito ou indelicadeza, é o caso da palavra “mulher” pela qual Nossa Senhora em algumas situações foi chamada por seu filho Jesus.

        Na cultura hebraica a qual pertencia Jesus e sua mãe, a palavra “mulher” (Yshah) entendia-se em alguns contextos como o feminino de “homem”, porém em outros adquiriu novo sentido. Nestes, envolvendo Nossa Senhora, expressa a sua função como filha predileta de Deus, sua vocação e missão no mundo.

Em outros momentos vimos Jesus trocar o nome de algumas pessoas por sutilmente lhes conferir uma nova missão, assim é, por exemplo, com Simão que Jesus troca seu nome para Pedro, de Saulo que se tornou Paulo, tudo com o propósito de que suas funções estivessem a partir dali voltadas a propagação da Boa Nova, e no caso especial de São Pedro, que se tornasse o guia espiritual de todos os cristãos, nosso primeiro Papa. Com Maria aconteceu algo semelhante ao Jesus chama-la de “mulher” em dois momentos.

*Em João 2 - no casamento em Caná, disse Jesus à sua mãe: "Que queres de mim, Mulher? A minha hora ainda não chegou!". Aqui podemos observar e supor que, pelo carinho e amor que Jesus sentia por sua mãe jamais a desrespeitaria, ainda mais em público. Por certo em suas palavras subtendido estava: “mulher” tu és a predileta do Pai, a que disse SIM a Deus, que aceitou ser minha mãe, que foi sempre obediente, ao contrário da outra mulher (Eva), que disse NÃO. Tu és a mulher que contribuirá para a vida, por isso mereces que eu até apresse a minha missão. De certa forma, Jesus, com sua atitude, propiciou à sua mãe o privilégio de tornar-se discípula, apóstola, mediadora, intercessora e mãe, facilitando e antecipando o contato de Cristo (Messias) com as pessoas a partir daquela festa.

*Também em João 19,26 - na cruz, Jesus mesmo sofrendo no corpo e na alma, lembra-se da vontade do Pai, de que seus filhos não poderiam ficar órfãos de mãe, se dirigindo a ela, na presença do apóstolo João diz: “mulher, eis aí Teu Filho!”. E a ele, representante de todos nós, disse: “eis aí a tua Mãe!”. Neste momento, por decreto do Filho de Deus, Maria recebe a função e a vocação de ser a mãe de todos que a aceitarem como tal.

        Assim se deu a grande descoberta: a função e missão materna, amorosa e cuidadora de Maria, passa muito além de João, ela se dirige aos outros apóstolos. Podemos formar a ideia de que a partir do mistério pascal, Nossa Senhora recebe de seu filho, além de mãe, também a vocação e missão de evangelizadora, discípula missionária. A mãe que ama e ajuda no crescimento espiritual dos que vão ao encontro de Jesus. Podemos dizer sem dúvida que ali ao pé da cruz, de certa forma, nasce na maternidade de Maria a transformação na maternidade da Igreja.

Assim, podemos perceber cf. São João, amigo, discípulo e agora eleito por ele como irmão de Jesus, que o termo “mulher”, longe de ser uma referência pejorativa à sua mãe, possui um significado bem mais profundo e teológico, simbolizando-a como mãe da Igreja, da comunidade dos cristãos, os quais possuem em Maria o seu modelo materno.

Que Maria, a mulher fiel ao seu Deus, que disse SIM ao Projeto da salvação, que aceitou ser a mãe do Messias e nossa mãe, possa nos ensinar a sermos seus verdadeiros filhos.