Anjos na Cabala Judaica

 

  1. O que é Cabala?

 

Na sua etiologia (raiz) significa “o recebido” portanto a “tradição recebida”. A palavra vem do verbo hebraico lecabel que tanto significa “receber” como “aquilo que é recebido”.  É chamada também de Caballa, Kaballa, Kaballah, etc. É toda doutrina judaica fora do Pentateuco. Uma coleção de Escritos esotéricos de vários Rabinos e alguns cristãos medievais  que consistem em interpretações místicas e numerológicas das Escrituras Hebraicas.

 

Mesmo os textos dos profetas e hagiógrafos era chamada de Cabala. Os autores da Cabala tratam cada letra, número ou acentos das Escrituras como se fosse um Código Secreto contendo algum significado profundo e oculto colocado lá por Deus. Segundo os seguidores da Cabala os escritos na Bíblia estão lá por algum propósito de Deus, mas se encontra muito profundo e oculto, inclusive as profecias.

 

Portanto, a Cabala também fornece métodos e pistas das marcas de Deus a serem interpretadas literalmente ou figurativamente. Foi muito aceita nos primeiros séculos da nossa era na cidade galiléia  de Safed, na Palestina. É uma corrente religiosa místico-teológica do judaísmo e, portanto os cabalistas judeus acreditam que o único mundo digno de se conhecer é o “plano mais elevado” e que a vida aqui na terra deve ser dedicadas a tentar compreender o mistério do “nível superior”.

 

 No início da descoberta destes mistérios envolvendo as Escrituras, Cabala designou a tradição oral que era transmitida paralelamente à Lei escrita. O texto principal da Cabala chama-se zohar (brilho).

 

O tempo mais forte da Cabala se deu no início da era cristã. A própria Cabala coloca sua origem em Abraão ou até em Adão. No século XII houve um reflorescimento quando foi adotada pelos místicos judeus  para designar a continuidade de sua “tradição”, ou seja,  um contato intenso entre humano e divino, uma consciência imediata com Deus, isto em represália a movimentos filosóficos aristotélicos muito fortes na época. Neste período foi considerado o pai da Cabala,  Isaac o cego (1210 d.C).

 

A Cabala reinterpreta todas as crenças e rituais principais do judaísmo em função da sua teologia esotérica, com implicações panteísticas. O Panteísmo era uma doutrina segundo a qual só Deus é real, sendo a soma de tudo o que nele existe.

 

O estudo e pesquisa hoje, sobre a Cabala, têm como base a Torah que, segundo os judeus, foi outorgada a Moisés (Moshe) no alto do Monte Sinai há 2448 anos atrás (no calendário judaico).

 

Abraão, Isaac e Jacó, assim como José e seus 12 filhos tiveram acesso às verdades  por trás do que hoje chamamos de mundo moderno. O próprio Moisés antes de retornar ao Egito quando se encontrava escondido em Madiã, para libertar seus irmãos hebreus, foi capaz de identificar a “presença de Deus” numa sarça ardente no meio do deserto – e nada mais comum do que um arbusto em chamas no deserto.

 

Cabala é o entendimento do que verdadeiramente acontece além da percepção dos nossos sentidos, além da lógica e das estatísticas. É algo que deve combinar razão com emoção. Seus seguidores acreditam que a Cabala traga luz espiritual, saúde, dinheiro, afeto etc.

 

É incrível como os cabalistas vêem hoje o comportamento humano em relação a Deus. O emprego desafiador, o carro do ano que você quer, a viagem de seus sonhos, as respostas estão na Cabala, como também as desgraças que possam acontecer.

 

O cabalista se pergunta: se o mundo irradia quantidade de luz espiritual para todos o que faz então com que alguns tenham sucesso e outros não? A resposta está na forma que buscamos esta luz. O entendimento dos ensinamentos mais profundos da Torah através da Cabala,  tem neste caso o valor da descoberta.

 

Mas o problema não está em apenas melhorar de vida. A prática constante da Cabala consiste na pessoa tornar-se melhor a cada dia, é um processo novo de crescimento. O cabalista recebe e partilha com os outros. Ele se torna melhor para fazer um mundo melhor.

 

Portanto, ser um seguidor da Cabala é estar comprometido, não é um passatempo, um hobby, mas um desafio que segundo eles, está repleto de recompensas.

 

2.Conteúdo da Cabala

 

         Por ser um conteúdo bastante complexo, está voltada à metafísica (depois da física). É parte da filosofia que procura determinar as regras fundamentais do pensamento, dando a chave do conhecimento do real. É o estudo do Ser enquanto Ser (Aristóteles), aos dogmas (ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina) e a exegese (interpretação científica).

 

         Na Cabala, Deus é em sof (infinito), é a origem de tudo. Porém entre Deus e o ser humano existem dez sefirot (dez números), que vieram da divindade. Por esta  razão muitas vezes a Cabala levava a prática da magia, astrologia e quiromancia (adivinhação pelas linhas da mão). A Exegese bíblica misturava-se com a Gematria (ciência dos números), baseando-se no valor das letras como números, muito comum nos escritos do Antigo Testamento.

Obs: A Universidade hebraica de Jerusalém possui uma cadeira especial para o estudo da Cabala.

 

         O zohar (trecho principal da Cabala) é, em sua maior parte, um comentário a seções do Pentateuco e partes dos Hagiógrafos (para o judeu, hagiógrafo não é apenas o escritor sagrado, mas a terceira parte da Bíblia deles que compreende os Salmos, Provérbios, Jó, Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e Crônicas). Na Cabala existe apenas uma parte dos Hagiógrafos (Cântico dos Cânticos, Rute e Lamentações).

 

         A Cabala  possui um escrito, o sefer Yetzirá (livro da criação), escrito possivelmente entre os séculos III e IV da nossa era, na Palestina ou na Babilônia. Seu conteúdo nos coloca uma versão estranha  da criação, um pouco diferenciada das que conhecemos nos dois primeiros capítulos do Gênesis.

 

         Este escrito falando do princípio de tudo, faz derivar a estrutura do cosmo a partir do alfabeto hebraico e dos  dez números primários contidos na Cabala (sefirot). Neste livro há uma grande influência gnóstica e neopitagórica (antes de Pitágoras). Mais o escrito é atribuído ao patriarca Abraão passando a englobar os mistérios da criação.

 

         Aproveitando as definições, vamos conhecer um pouco do que seja sefirot. É um termo técnico do misticismo cabalístico, usado a partir do século XII para designar as 10 potências pelas quais Deus se manifesta, através das 10 primeiras letras hebraicas.

 

         O desenvolvimento mais importante do estudo cabalístico se deu no século XVI (1534-1572) com Isaac Luria que introduziu em seus escritos o elemento messiânico (Messias), conduzindo seus seguidores a um movimento messiânico de tipo místico.

 

  1. A Cabala e os anjos

 

Ela consegue explicar com detalhes a influência da hierarquia dos anjos nas pessoas. Esse costume é muito antigo entre os judeus, vem desde o período pós exílico e por influência persa (século VI a.C). Foi o tempo mais forte do culto aos anjos pelos judeus. Os persas acreditavam que a distância entre Deus e o ser humano poderia ser encurtada com a intervenção desses mensageiros. Este costume ainda hoje faz parte da tradição católica sobre os anjos.

 

 Talvez o costume se deu em parte pelo sincretismo religioso que havia na Palestina por ocasião do retorno do exílio. Pelas culturas pagãs existentes,  pelo tumultuado retorno da Babilônia para a terra após tantos anos, como também a dificuldade de adaptação do povo ao novo meio. Sabemos que os que voltaram em sua grande parte não foram os levados por Nabucodonosor,  mas seus filhos e netos.

 

Esses descendentes tinham uma cultura diferenciada, costumes e tradições mescladas com outros povos. Para eles a distância entre Deus e o mundo era imensa, necessitando desta forma da intervenção dos anjos. O anjo neste contexto teria a incumbência de trazer e levar “os recados” do mundo celestial para o terreno. Proteger os humanos de todos os perigos e ajudá-los a resolverem seus problemas. Talvez por isso foram criadas tantas hierarquias, como já vimos antes (p. 5). Segundo eles, a Cabala corretamente interpretada revelaria o mapa a ser trilhado pelas almas no percurso do caminho de volta ao Criador. Através da gematria (numerologia) que se vale dos algarismos 1 a 9, muitas revelações vão surgindo,  mas poucos tem o privilégio de entendê-las.

 

 

  1. Classificando os coros angélicos

 

A distinção dos anjos segundo os estudiosos da Angeologia se dá em nove coros. Agrupados em três hierarquias diferentes, são mediadores e colaboradores de Deus. Embora não conste diretamente na Bíblia era e é uma crença geral. Essa distinção é feita em relação a Deus na condução geral do mundo e das pessoas.

 

Os três coros da primeira hierarquia são os que estão mais perto de Deus, vêem a sua glória e convivem com Ele (os serafins)

     Ver: Is 6,1-3

 

    Ver Sl 98,1

 

         Os três coros inferiores aos acima citados estão relacionados com a conduta geral do Universo, são anjos que convivem com o ser humano.

 

         E os três últimos coros dizem respeito à conduta particular dos Estados, das companhias e das pessoas. Vejamos isso na prática:

 

- Os Serafins: a palavra vem do grego Seraph, que significa abrasar, queimar, consumir. Estes assistem ante ao trono de Deus. Seu privilégio é poder estar unido ao Criador de uma forma íntima.

 

  • Os querubins: a palavra vem do hebraico querub, que São Jerônimo e Santo Agostinho interpretaram como “plenitude de sabedoria e ciência”. Estes assistem também ante o trono de Deus. De uma certa forma são superiores a todos os outros anjos.

 

  • Os anjos potestados: São os condutores da ordem sagrada. Executam as grandes ações que toca ao governo universal do mundo eclesial, operando assim prodígios e milagres extraordinários.

 

  • Os anjos da virtude: cujo nome significa “força”, são encarregados de afastar os obstáculos que se opõem ao cumprimento das ordens de Deus. Eles afastam os anjos maus que assediam as Nações mantendo assim a ordem divina no mundo.

 

  • Os anjos principados: como seu nome indica, estão revestidos de uma autoridade especial. São eles quem presidem os reinos, as províncias e as dioceses, são assim denominados pelo fato do seu poder estenderse universalmente.

 

  • Os anjos: estes sem título ou hierarquia, são todos os que possuem a incumbência de Deus de guardar cada ser humano na terra. Ele nos defendem contra os inimigos visíveis e invisíveis nos conduzindo ao caminho da salvação. Velam por nossa vida espiritual trazendo luz, força e a graça de que necessitamos para chegarmos até Deus. É o famoso e conhecido “anjo da guarda”.

 

 

4. Hierarquia especial

 

     Ainda comentando sobre a classificação angelical onde a organização abrange as várias categorias ou classes, percebemos que é bastante semelhante às organizações políticas no mundo, onde existem graduações maiores e menores, postos de confiança e de importância primordiais. De um modo genérico re-estudaremos  aqui uma hierarquia especial dos anjos que já vimos em aulas passadas sobre os “anjos de Deus” ou “anjos de Javé”..

 

     Percebemos que a Bíblia nos dá a entender que estes anjos se acham organizados de forma hierárquica destacada pelo tipo de atividade que eles exercem no céu e na terra.

 

  • O arcanjo: a palavra vem do prefixo grego arch. Sugere tratarse de um chefe, um príncipe, um primeiro-ministro, como é colocado nos apócrifos. Estes anjos têm em seu nome a terminação EL (aqui seria bom estudarmos a importância do NOME em Israel), como vimos na página 9. RafaEL, GabriEL, MicaEL, UriEL, MiguEL e RemiEL.

 

Nos escritos canônicos bíblicos do Novo Testamento (veremos com mais detalhes no capítulo 3), somente aparece o arcanjo Miguel no livro de Judas 9, contudo são considerados também arcanjos Gabriel e Rafael, além de mais alguns. Miguel se destaca biblicamente como uma espécie de administrador e protetor dos interesses divinos em relação a Israel. Cf. Dn 12,1.

 

       O arcanjo tem a incumbência de transmitir mensagens importantes. Assegurar bons relacionamentos, trazer sabedoria e discernimento. São ágeis e querem ver todos felizes neste mundo. Vamos conhecer alguns dos arcanjos:

 

Rafael: (Deus cura). É o arcanjo da glória e do esplendor. Seu nome divino é Elohim Tsabaoth. Junto com Gabriel, Miguel e Auriel, Rafael guarda os 4 quantos da terra. Sua proteção maior se dá na cura aos doentes e por isso é chamado o guardião da saúde física e espiritual. Está sempre procurando confortar as pessoas nas horas de desespero e acalmar os sofrimentos interiores.

 

Gabriel: (homem de Deus). É o arcanjo da esperança, do fundamento. Seu nome divino é Shaddai El chaiim. Foi o arcanjo da anunciação e da Revelação, sendo comumente associado a uma trombeta. Como mensageiro divino ele preside o Paraíso. É a voz de Deus, o transmissor das boas novas. Dizem os antigos rabinos que o arcanjo Gabriel carregou Abraão nas costas até  a Babilônia. Na tradição islâmica, Gabriel ditou todo o alcorão a Maomé, profeta de Alá. Este arcanjo é citado várias vezes na Bíblia:

  • Anunciou a vinda do Redentor ao profeta Daniel (Dn 9).
  • Anunciou a Maria que ela seria a mãe do Salvador (Lc
  • Apareceu a Zacarias para anunciarlhe o nascimento de João Batista (Lc 1,9).

 

  Miguel: (o que é um com Deus). É o arcanjo da beleza ou realeza. Seu nome divino é Alovah va daath (o perfeito de Deus, aquele que se assemelha a Deus). Ele e Rafael são os dirigentes de todos os anjos. Miguel é descrito como um Sumo Sacerdote celestial. Ele é um curador e encarregado das chaves do céu (recebeu de São Pedro o cargo???) e o principal adversário de Satã. É considerados o chefe dos exércitos celestiais e o padroeiro da Igreja Católica Universal. É o anjo do arrependimento e da justiça. Seu nome é citado 3 vezes na Bíblia.

  • Dn 12,
  • Ap 12
  • Carta de Judas

A igreja católica tem uma grande veneração e devoção a este arcanjo. Ele nos defende com o grande poder que Deus lhe concedeu, das ciladas do mal.